domingo, 3 de agosto de 2008

O encontro

Eu tenho muitas pessoas em mim, isso é fato. E sempre me orgulhei de gerenciar esse povo todo que vive na minha cabeça de forma que cada um vivesse sem atrapalhar a vida do outro. Não sou esquizofrênica, que fique claro - é apenas uma constatação da minha condição de multifacetada organizada.
Mas há horas em que o gerenciador de tráfego cerebral sai do ar e determinados seres, desses que moram na minha cabeça (pronto, agora pareço uma doida falando!), se encontram numa encruzilhada psíquica qualquer e a máquina emperra.
Há muito que ando criativamente bloqueada para escrever. Vinha culpando o excesso de trabalho, o stress diário, os compromissos, enfim, todo tipo de motivação externa que facilite a fuga de mim mesma.
Hoje me dei conta que o problema é singelo, ainda que de solução desconhecida. Acontece o seguinte: a luciana séria e responsável e advogada e businesswoman e controlfreak parou na esquina da luciana louca e sensível e artística e tatuada e roqueira e open-minded.
As duas se olham e não se reconhecem, porque se distanciaram tanto uma da outra que suas imagens vêm como fotos de álbuns antigos.
A primeira precisa manter o status de seriedade, formalidade, retidão e inabalável conduta - para os moldes da sociedade conservadora em que optou se infiltrar (os motivos, sabe-se-lá quais foram). Ela transformou-se num robô, porque achava bonito ser admirada por suas habilidades de gestão e seus conhecimentos técnicos. Sempre quis provar ao mundo que podia falar a língua de qualquer interlocutor. Passou a achar normal ter que se adaptar à dureza do mundo e aprendeu que homens de negócio não respeitam mulheres jovens, loiras e com peitos tão proeminentes como sua inteligência - esta, contudo, só conseguia mostrar se falasse duro e virasse déspota. E durante esse caminho de tailleurs, notebooks e reuniões, criou-se um monstro. Ela já não precisa fingir que é forte, que não se choca, que não se constrange, que não se intimida. Ela simplesmente não se choca, não se constrange e não se intimida. Tudo no automático. Força no automático. Ela foi parando de segurar a parede da represa e viu que a parede não cedia mais. A blindagem emocional para o público estava completa.
A segunda gosta de rir, amar, musicar, escrever, voar e ser sem culpa. Ela sempre esteve presente, com maior ou menos discrição. Passou a ter medo da reação pública. Ouvira muito falar de fogueiras e bruxas e resolveu esconder os desenhos que tinha no corpo só para garantir. E ouvira falar também de filhos dos quais os pais não se orgulham e de gente que não tem carreira de sucesso e de que arte não paga conta. Diminuiu o passo para se proteger, já que, como não gosta de escudos e armas, começou a sofrer ataques internos e externos. Sempre foi de se emocionar com coisas que lhe parecem lindas e de chorar quando sentia fluxos de sentimentos dançando em sua mente. Pintou quadros de olhos fechados e coração aberto, escreveu letras de música de amor e poemas de sangue. Sempre deu-se por inteiro a quem achou que a merecia e também a quem achou por bem se entregar. Sonhava em viver apenas sentindo as boas vibrações do mundo à sua volta.
Agora, as duas encontram-se cara à cara. A primeira, sempre impecável e segurando seu escudo de arrogância, olha para a segunda com a dor de quem se dá conta da crueldade do tempo.
Elas têm a mesma idade e há cerca de quinze anos rumaram em direções opostas. A segunda parece mais nova, não pelo contraste de seu jeans rasgado com a saia chanel da outra, mas pela ausência de máscaras cuja carga não precisou transportar com os olhos.
Elas estão paradas e observam-se.
Não sabem ao certo o que motivou o reencontro após tantos anos e também desconhecem as razões pelas quais simplesmente não conseguem parar de se olhar.
Ainda não há diálogo, pois mal consegue-se respirar naquela encruzilhada.

2 comentários:

GUNNER disse...

Bravo. Muito bem feita a descricao. Tambem vivo dessas antiteses. Ainda não descobri se os eus aprenderam a conviver ou se e' o prozac agindo...ou se e' o silencio q precede a tempestade...ou quem sabe seja nada disso.

Luciana F. disse...

Eu acho que os eus convivem bem até chegarem ao ponto de medir forças - daí, ainda não tenho resposta....Bjos