quarta-feira, 29 de julho de 2009

Somos ridículos

Há filmes que merecem ser assistidos várias vezes. Não há tantos como os livros que merecem ser relidos - e nem tantas vezes -, mas alguns merecem destaque. E, às vezes, há filmes que chegam despretensiosos, com o único e exclusivo objetivo (na ótica do expectador) de entreter ou afastar o stress do dia que finda, e acabam sendo fonte de reflexões e debates – ainda que sob as cobertas da noite gelada de Porto Alegre.
Foi assim com Before Sunset, que foi parar no DVD player apenas para descansar a cabeça na noite da terça-feira exaustiva. Minha lembrança era de uma continuação água-com-açúcar com belas locações em Paris.
Em Paris, um norte-americano e uma francesa se reencontram após nove anos de um encontro de uma noite em Viena e o filme é um diálogo tão doloroso quanto delicioso e, por isso, existencialmente angustiante, durante uma caminhada de algumas horas pela capital francesa.
O diálogo é ininterrupto, mesmo nos breves momentos de silêncio. Dois atores apenas, Ethan Hawke e Julie Delpy. E Paris com clichês que passam ao largo em razão da intensidade e da simplicidade das pessoas. O mais impressionante é a manutenção, durante todo o filme, de grande desconforto pela identificação da porção demasiada humana dos personagens; indivíduos comuns, cujas escolhas tanto arruinaram quanto iluminaram suas vidas.
Culpando a ilusão dos tempos juvenis, acabam por lamentar-se de muitas coisas, ao mesmo tempo em que creditam à bagagem dos anos a aceitação natural de suas idiossincrasias. São condescendentes sem ter opção de não sê-lo.
A temática é tão corriqueira e, ainda assim tão densa, que me vejo agora com dificuldade de focar no que pretendo dizer, passando-me miseravelmente por resenhadora cinematográfica.
Uma das características mais marcantes do filme é a de justamente ser uma espécie de fotografia da vida moderna e de suas complicações criadas pelas próprias pessoas e, destas mesmas, sendo alvo de crítica severa – e merecida, há que se dizer.
Passa-se a vida em busca de algo externamente projetado - cuja miopia social nos faz crer ser de nossa exclusiva criação! – e, repentinamente, chega-se a determinados pontos onde a encruzilhada é maior do que a tendência à zona de conforto. O drama será maior ou menor em função da importância que damos à nossa persona, isto é, ao que o mundo enxerga quando nos vê. E nessa esquizofrenia existencial, muitas vezes desistimos do sofrimento rápido (sabendo que trará a bonança duradoura) e preferimos a anestesia eterna do mais ou menos.
Por que, diabos, importa tanto se temos vinte, trinta, cinqüenta ou setenta anos? Por que tornamo-nos rígidos ainda que saibamos sermos os únicos responsáveis por nosso próprio destino?
Sim, a escolha é cerebral. Nenhuma crença é tão forte quanto a de que somos os donos de nossa existência e, mesmo assim, capitulamos, em maior ou menos grau, diante de olhares ou de palavras que nos são contrários.
Somos todos ridículos. Por que simplesmente não aceitamos nossa condição de pobres coitados no meio da imensidão do universo? Poderíamos ser muito mais leves se aceitássemos nossa condição de poeira das estrelas.
Mas, não, muitas vezes somos capazes de deixar que a falta de nexo, maquiada de civilidade, nos coloque em posição de desvantagem em relação a nossos pares. Nesses momento é que perdemos a consciência do fato de sermos proprietários de nossa liberdade.
Demoramos tanto a aceitar que a vida pode ser tudo o que quisermos que, quando o tudo cai em nossas mãos, não o reconhecemos.
De qualquer modo, sempre há a possibilidade de render-se ao compromisso com a própria felicidade - nem que seja na última cena.
Recomendo o filme de qual falava antes a todos que não têm medo de viver e a todos que já experimentaram acreditar na sua própria mágica.

6 comentários:

Márcio Almeida Júnior disse...

Dra.
Assisti ao filme e me convenci de duas coisas: 1ª) de sua capacidade de fazer críticas que extraem leite de pedra; 2ª) de que a Srta. deveria merecer um prêmio dos produtores, pois, a julgar pelo que li a respeito do filme depois de tê-lo assistido, nem eles devem ter visto tanto valor em sua obra. A Srta. fez o que o filósofo norte-americano contemporâneo Richard Rorty chama, à maneira dos pragmatistas, de redescrição: uma nova forma de ver a realidade, com base em argumentos coerentes. Rortyanamente, assistirei novamente ao filme, procurando aplicar sobre ele sua redescrição. O otimismo é sempre melhor do que o pessimismo. Saudações.

Luciana F. disse...

Oi Márcio!!! Me divirto com seu comentários! Sua maneira de dizer "como essa louca gostou tanto desse filminho de merda?" é fantástica! Reconheço que acabei filtrando apenas a parte que me causou identificação e acabei por idealizar uma produção fraquinha - mas eu sou uma entusiasta de diálogos intermináveis, fazer o quê! Abração!

Marcelo Oronoz disse...

Eu discordo do Dr. Márcio. Achei um filme com diálogos muito ricos sobre relacionamentos e sobre auto-conhecimento. Mais do que isso: provoca inquietação àqueles que vivem vidas pré-fabricadas...e esquecem de procurar o que é essencial.

Anônimo disse...

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