sábado, 1 de março de 2008

As duas

Ela se olha no espelho. Linda. Às vezes, pergunta-se para que tamanha perfeição. Se pudesse, seria afetivamente auto-suficiente. Ela mesma se tem na mais alta consideração. Também pudera. Estendem-lhe tapetes e olhares por todos os lados. Um ser adorável gera mesmo esse tipo de reação. Nada mais natural que seu perfume embriague todos à sua volta como o faz com ela própria.
A outra desvia o olhar quando cruza consigo mesma. Compreensível. Poucas vezes se viu ser mais desprezível. Vileza é pouco. Feiúra é elogio. Matar-se-ia caso tivesse cérebro. Sua burrice afasta-lhe do fim. É obtusa e ainda assim corrói com seu ácido qualquer coisa que se aproxime. Dorme tranquila após torturar inocentes e transforma em lama o chão alheio. Cheira a enxofre.
As duas se encontram sempre em noite de lua cheia. Ou talvez nem haja lua no céu e o encontro exista independentemente de justificativas ocultas. O fato é que quando se unem, sangram pela dor de saberem-se inseparáveis. Não se suportam. Não suportam admitir que coexistem. São interdependentes. São reflexo que muda conforme a luz. Seriam amantes, não fossem assassinas da alma compartida. São vida e morte no mesmo corpo ao mesmo tempo. Repulsam-se. Odeiam-se. Mas, cogitado o afastamento, não respiram de saudades.
(Dá série: mulher TPM....rsrsrsrsr)

2 comentários:

Germano V. Xavier disse...

Isso é que é ódio lapidado em sutilezas... Uma atração não quista, porém vivenciada... Sensação rica para se extrair palavras e registrar indícios de assassinatos diários... Gostei da sinceridade do texto, Lu.

Continue nos presenteando...

Geu

Anônimo disse...

Muito lindo, Luciana.
Parabés.
Maria Valéria.